Eu preciso de uma referência, de suporte, de apoio…
Ser universitário é quase um ser sozinho e sem referência. É um grande vai lá e se vira. E sua nota depende disso. Não há parâmetros para medir se eu entendi ou não um conteúdo. É um grande freestyle. Isso pra mim é tão violento quanto estruturar demais e não deixar nada escapar do método. Estrutura demais sufoca o orgânico e a invenção, criação. Mas, sem estrutura nenhuma o que temos é um grande nada.
Doses. Precisamos de doses de freestyle e doses de limites. Doses de fazer e estar só e doses de fazer acompanhado com supervisão, apoio. Referência é segurança. E segurança é afeto. É estar compondo junto, tranquilo, confiante. Confiando. Co-fiando, fiando junto.
Eu tive poucos que seguraram minha mão para ensinar e que soltavam quando viam que eu podia fazer sozinha. Soltavam, mas ficavam ali, à espera não do meu erro, mas de me entregar suporte SE eu precisasse. É a ausência desse tipo de companhia que eu mais vejo na atualidade e é (para mim) o nosso zeitgeist. Uma ausência de mestres para afirmar ainda mais um modo de vida individualista e que causa distância entre o afeto e o aprender. Isso nos distancia do aprender porque a gente aprende a partir de como aquele conteúdo nos afeta. O russo já nos disse bastante sobre isso, o Vigotski. Me inspiro nele para criar meus aprendizados.
Aprender a andar de bicicleta é um ótimo exemplo de como funciona a aprendizagem e a duração que uma referência precisa ter.
Cursos autoinstrucionais, EAD, tutores virtuais, CHAT GPT… eles até fazem sentido atualmente porque vivemos numa lógica conteudista e não prática. Não somos avaliados por nossas práticas, mas por aqueles nossos resultados que podem ser enquadrados. Podemos estar um bagaço, mas se entregamos o que foi pedido é isso o que importa. Foda-se o corpo, a pessoa, o sujeito e bem dito seja a planilha, a meta, a quantidade (sarcasmo nesta frase).
Querem que alcancemos o resultado, mas COMO o alcançamos é muito mais importante porque ele nos dá sustentabilidade nos nossos fazeres. Permite que façamos uma vez para fazer de novo sem matar a fonte criadora - nós mesmos - sem levá-la à exaustão. Mas, para isso, precisamos de alguém que ensine, explique, acredite, na criação dos nossos COMO, articulando o afeto como mediador do nosso aprender.
Encerro essa breve ideia apontando o autismo como um tapa na cara da sociedade, pois ele denuncia que não dá para seguirmos sem suporte, sem apoio. Nele, o apoio é categorizado como nível 1, 2 e 3 o que nos irrompe a entender que não existe essa de aprender, ser e viver sem suporte. Mas, isso não deveria ser um atributo a indicar um diagnóstico de neurodivergência, pois aprender e ser sempre demanda suporte., referência e companhia.
Não é minha intenção aqui teorizar sobre o autismo ou falar de maneira leviana sobre o tema, mas, deixar em evidência como esse fenômeno nos faz retornar ao que é caro ao humano e à subjetividade: afeto, companhia e referência.